• Biologia Evolutiva

A herança de caracteres adquiridos como oposição entre Lamarck e Darwin

Atualizado: 24 de Ago de 2018

De onde vem, afinal, essa pseudo-história?

Claudio Ricardo Martins dos Reis*


O texto abaixo é de Maria Elice Prestes, do Instituto de Biociências da USP, e foi publicado na edição de dezembro de 2017 do Boletim de História e Filosofia da Biologia. Trata-se de uma resenha do livro intitulado George John Romanes and the struggle for Darwin’s mantle, de Roberto de Andrade Martins.


Na escola, nos livros didáticos e em muitos materiais de divulgação da história da ciência é frequente encontrarmos a contraposição entre as teorias evolutivas de Lamarck e de Darwin. Em geral, afirma-se que Lamarck explicou o surgimento de novas espécies por herança de características adquiridas pelo uso ou desuso, enquanto Darwin descartou essa explicação, atribuindo a origem das espécies à seleção natural, decorrente da luta pela sobrevivência.


Essa contraposição entre os dois autores costuma ser usada como uma espécie de estratégia didática voltada a salientar que a teoria da seleção natural de Darwin teria suplantado a ideia de herança de caracteres adquiridos defendida por Lamarck. Do mesmo modo, o próprio termo “lamarckismo” costuma ser utilizado como sinônimo de “herança de caracteres adquiridos”.

O problema disso tudo é que há aí um grande equívoco histórico! Essa contraposição deixa subentendida uma rejeição de Darwin à ideia de Lamarck, o que não aconteceu e se trata, na verdade, de mais um exemplo de pseudo-história¹. É certo que desde a época em que rascunhava os primeiros esboços das ideias evolutivas, o próprio Darwin considerava a sua teoria “muito distinta da de Lamarck” (Notebook B, 214). Como ele mesmo escreveu no final da Introdução de A origem das espécies, a “seleção natural tem sido o meio de modificação [das espécies] mais importante”, acrescentando a seguir, “embora não tenha sido o único” (Darwin [1859] 2014, p. 35). É que além da seleção natural, Darwin considerava a ação de alguns outros processos, dentre os quais, a herança de caracteres adquiridos pelo uso e desuso. Como essa ideia de Darwin foi excluída da teoria evolutiva posterior, ela não raro está ausente até mesmo de relatos históricos sobre as contribuições do naturalista inglês. Na verdade, ela constituiu elemento importante de outra teoria que Darwin formulou sobre os mecanismos de herança. A “hipótese da pangênese”, como ele a chamava, também não é aceita hoje, razão pela qual não costuma ser mencionada entre os feitos de Darwin. Pode-se conhecê-la, por exemplo, em um breve artigo publicado pelo próprio Darwin na revista Nature, em 1871 (Darwin, 1871). As ideias de herança de Darwin receberam uma explanação detalhada em seu livro The Variations of Animals and Plants under Domestication (As variações dos animais e plantas sob domesticação), em dois volumes, no qual ele discutiu uma enorme quantidade de experimentos e observações sobre o tema (Darwin, 1875). Outro exemplo é o seu livro A expressão das emoções no homem e nos animais, em que a herança de caracteres adquiridos constitui um dos eixos centrais de suas explicações sobre a manifestação das emoções, discutidas ao longo da obra (Darwin [1872], 2000). Outro equívoco histórico decorrente de situar Lamarck e Darwin como aceitando e rejeitando, respectivamente, a herança de caracteres adquiridos é o de tomar essa ideia como o “mecanismo primário da teoria de Lamarck” (Burkhardt, 2015, p. 80). Na verdade, essa ideia é muito antiga e suas origens remontam à Antiguidade grega. Como a historiadora da biologia Lilian Al-Chueyr Pereira Martins vem mostrando em diversas publicações, é apenas uma das quatro “leis” que compunham a teoria de Lamarck para a transformação das espécies (Martins, 1997, 2006, 2007, 2015). A ideia de herança de caracteres adquiridos era tão amplamente aceita na sua época, que Lamarck não deu muita atenção ao tema e não forneceu maiores explicações ou exemplos. Darwin, ao contrário, dada a relevância que possuía para a sua teoria da pangênese, dedicou-se pessoalmente a estudos de herança que envolvessem a transmissão de caracteres adquiridos. Além disso, ele ainda solicitou a colegas e colaboradores que realizassem observações e experimentos que pudessem fornecer evidências favoráveis a essa explicação (Martins 2008, 2010). Assim, em resumo, a herança de caracteres adquiridos não deveria ser apontada como uma diferença entre as propostas de Lamarck e Darwin, pois, pelo contrário, esse é um ponto em comum entre os dois autores. Mas, então, se o próprio Darwin defendia essa ideia, de onde vem esse engano de chamá-la até hoje de “lamarckista”? Será que essa narrativa foi construída pela própria história da ciência do início do século XX, marcada ainda pelo olhar anacrônico que analisa o passado com o conhecimento do presente e pela perspectiva linear e continuísta sobre o desenvolvimento do conhecimento científico? Ou foram os materiais de divulgação científica ou, ainda, os livros didáticos que engendraram – e, infelizmente, permanecem difundindo – essa contraposição destituída de embasamento histórico? No seu mais recente livro publicado em inglês, George John Romanes and the struggle for Darwin’s mantle, o historiador da ciência Roberto de Andrade Martins desvenda esse mistério! Atenção! Se não quer ler o spoiler dessa história, não leia (...) [os próximos dois parágrafos]. ================== Após a morte de Darwin, herdeiros do seu legado, evolucionistas convictos, como o próprio Romanes e vários outros, como Hooker, Weismann, Huxley, Galton, Bates, Wallace, passaram a identificar abertamente os pontos em que discordavam das ideias do “mestre” Darwin. Meandros e sutilezas da batalha travada entre eles mostram como lançaram mão, por exemplo, de artifícios retóricos diversos. Nas suas tomadas de posição, denominaram-se, uns, “darwinianos”, outros “neo-darwinianos”, outros ainda, “lamarkistas” e “neo-lamarkistas”. Assim, a resposta curta do mistério é esta: a contraposição entre as ideias de Darwin e de Lamarck foi elaborada pelos próprios evolucionistas seguidores das ideias de Darwin, no final do século XIX. A resposta longa, você a encontra no livro de Roberto Martins. ================== Interessado em apresentar uma análise da carreira do pesquisador George John Romanes, que se associou aos estudos de Darwin no final de sua vida, o livro de Martins acaba oferecendo um panorama amplo dos debates em torno da teoria evolutiva no final do século XIX. Recheado de citações dos trabalhos originais da época, o livro possui a costumeira clareza argumentativa de Roberto de Andrade Martins, destrinchando o intrigante enredo que envolveu os herdeiros do “manto de Darwin”. Possui também a reprodução autorizada de um dos trabalhos de George Romanes. A obra, além de leitura agradável e instigante, não apenas lança luzes sobre a intriga histórica aqui discutida, como é de precioso auxílio para guiar uma leitura contextualizada das ideias originais desse grande naturalista inglês, Charles Darwin. Notas: 1 Casos de uma “quase-história” (Whitaker, 1979) ou de uma “pseudo-história” (Allchin 2004) são problemáticos porque transmitem uma ideia falsa sobre o processo histórico da ciência e a natureza do conhecimento científico. As pseudo-histórias são, em geral, interpretações sobre acontecimentos históricos reais, mas descritos de modo fragmentário e com omissão de contexto (Tavares e Prestes, 2012, p. 36).

*Bacharel em Ciências Biológicas, mestre em Ecologia, doutorando e graduando em Filosofia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Tem interesse em Filosofia, especialmente Epistemologia e Filosofia da Ciência, incluindo a dimensão social do conhecimento científico e o papel apropriado dos valores na produção desse conhecimento.


Referências bibliográficas: ALLCHIN, Douglas. Pseudohistory and pseudoscience. Science & Education, 13: 179-195, 2004. BURKHARDT, Richard W. Myth 10: That Lamarckian Evolution relied largely on Use and Disuse and that Darwin rejected Lamarckian Mechanisms. Pp. 80-87, in: NUMBERS, Ronald L.; KAMPOURAKIS, Kostas. Newton’s apple and other myths about science. Cambridge: Harvard University Press, 2015. DARWIN, Charles. Notebook B. Transmutation (1837-1838). In: John van Wyhe (ed.). The Complete Work of Charles Darwin Online (http://darwin-online.org.uk/). ______. A origem das espécies [1859]. Trad. e notas de Carlos Duarte e Anna Duarte. Prefácio Nelio Bizzo. São Paulo: Martin Claret, 2014. ______. Pangenesis. Nature, 3: 502, 1871. ______. A expressão das emoções no homem e nos animais [1872]. Trad. Leon de Souza Lobo Garcia. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. ______. The variation of animals and plants under domestication. 2nd ed. London: John Murray, 1875. 2 vols. MARTINS, Lilian Al-Chueyr Pereira. Lamarck e as quatro leis da variação das espécies. Episteme, 2 (3): 33-54, 1997. ______. A herança de caracteres adquiridos e a mutação dos animais. Scientific American – História, 6: 45-48, 2006. _____. A teoria da progressão dos animais de Lamarck. Rio de Janeiro: Booklink, 2007. _____. A herança de caracteres adquiridos nas teorias evolutivas do século XIX, duas possibilidades: Lamarck e Darwin. Filosofia e História da Biologia, 10 (1): 67-84, 2015. MARTINS, Roberto de Andrade. Os experimentos de Brown-Séquard e a herança de caracteres adquiridos por acidente, na segunda metade do século XIX. Filosofia e História da Biologia, 3: 347-376, 2008. ______. August Weismann, Charles Brown-Séquard e a controvérsia sobre herança de caracteres adquiridos no final do século XIX. Filosofia e História da Biologia, 5 (1): 141-176, 2010. TAVARES, Taysy F.; PRESTES, Maria Elice Brzezinski. Pseudo-história e ensino de ciências: o caso Robert Hooke (1635-1703). Revista da Biologia, 9 (2): 35-42, 2012. WHITAKER, M. A. B. History and quasi-history in Physics Education: Part I & II. Physics Education 14: 108-111; 239-242, 1979.

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