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  • Biologia Evolutiva

As Bases Biológicas dos Transtornos Mentais

Tradução: Lucas Henriques Viscardi


Uma resenha de Adrian Woolfson sobre o livro: Good Reasons for Bad Feelings: Insights From the Frontier of Evolutionary Psychiatry; de Randolph M. Nesse Dutton (2019)

Titulo original: The biological basis of mental illness

Nature 566, 180-181 (2019).


Titulo original: The biological basis of mental illness

Nature 566, 180-181 (2019) doi: 10.1038/d41586-019-00521-2




Globalmente, o peso da depressão e de outras condições de saúde mental estão aumentando. Somente na América do Norte e na Europa, transtornos mentais são responsáveis por até 40% de todos os anos perdidos por invalidez. E a medicina molecular, que obteve enorme sucesso no tratamento de doenças como o câncer, não conseguiu conter a maré. Nesse contexto alarmante, entra o pensamento instigante do livro Good Reasons for Bad Feelings (Boas Razões para Maus Sentimentos), em que o psiquiatra evolucionista Randolph Nesse oferece discernimentos que reformulam radicalmente as condições psiquiátricas.


Nessa perspectiva, as raízes dos transtornos mentais, tais como ansiedade e depressão, encontram-se nas funções essenciais que evoluíram de forma conjunta (building blocks) de funções comportamentais e cognitivas. Além disso, como as pernas dos cavalos puro-sangue de corridas – selecionados para maior comprimento, mas tendendo à fraqueza – alguns aspectos disfuncionais das funções mentais podem ter originado pela seleção de traços não relacionados, como capacidades cognitivas. Vulnerabilidades intrínsecas na mente humana podem ser um trade-off para otimizar recursos não relacionados.


Ideias semelhantes surgiram antes, em diferentes contextos. Os biólogos evolucionistas Stephen Jay Gould e Richard Lewontin, por exemplo, examinaram criticamente a fé cega da teorização evolutiva “adaptacionista”. Seu clássico artigo de 1979, "Os spandrel* de San Marco e o paradigma Panglossiano", desafiou a ideia de que cada aspecto de um organismo foi aperfeiçoado pela seleção natural. Em vez disso, como os triângulos curvos da alvenaria entre arcos que sustentam cúpulas na arquitetura medieval e renascentista, algumas partes são subprodutos estruturais contingentes. Eles podem não ter vantagem adaptativa perceptível, ou mesmo podem até ser mal adaptativos. A intuição de Gould e Lewontin foi, em certa medida, justificada pela genética molecular. Certas versões do complemento proteico 4A do sistema imunológico primitivo, por exemplo, evoluíram por razões não relacionadas à função mental e, no entanto, estão associadas a um aumento do risco de esquizofrenia.


*spandrel é um termo arquitetônico referente às áreas triangulares curvas entre arcos de colunas ou cúpulas que lhes dão suporte.


Compensações Genéticas (trade-offs)


Décadas anteriores, o teórico evolucionista George C. Williams explorou, talvez, o aspecto mais intrigante da biologia humana: nossa tendência inconveniente de envelhecer e morrer. Ele sugeriu, em 1957, que alguns dos genes que causam o envelhecimento evoluíram porque aumentaram a aptidão no início da vida. Essa pleiotropia antagônica - na qual um único gene controla pelo menos um traço benéfico e outro prejudicial - sugere que o projeto (design) de estruturas biológicas é um problema de otimização complexo envolvendo múltiplos trade-offs. Emoções e outros aspectos da função mental não são como componentes de uma máquina, cada um com uma função definida; em vez disso, elas estão incorporadas em complexas e sobrepostas vias bioquímicas.


Em 1994, Nesse se juntou a Williams para Why We Get Sick (porque ficamos doentes), um manifesto para a “medicina darwiniana”. Suas ideias abriram novas perspectivas sobre as origens das doenças, argumentando sobre as causas "próximas" (impulsionadas pela anatomia, bioquímica e fisiologia) e causas "evolutivas" de nível superior. Eles notaram que a evolução seleciona para o sucesso reprodutivo e não para a saúde e felicidade; daí a existência de doenças e distúrbios humanos. Eles também detalharam a natureza contingente e às vezes "irracional" dos legados biológicos, como os nervos e vasos sanguíneos, que atravessam a superfície retiniana do olho humano. Olhos de cefalópodes não têm essa "falha".


Good Reasons for Bad Feelings foi escrito sobre estas ideias. Adotando um ponto de vista de um engenheiro sobre os transtornos mentais, Nesse sugere que anxiedade, apesar de aparentemente indesejada, é um componente com utilidade em certas situações – por exemplo, como um “detector de fumaça” para eventos com potenciais riscos de vida events. Depressão também pode executar funções adaptativas. O psiquiatra Aubrey Lewis argumentou que, ao sinalizar a angústia, a depressão poderia levar os outros a prestarem assistência por meio de busca de alimentos e outras atividades. Foi até sugerido que o comportamento depressivo em macacos verdes africanos (Chlorocebus pygerythrus) evoluiu para sinalizar perda de status, desviando ataques de machos dominantes.


No entanto, por mais funcionais que sejam seus componentes quando apropriadamente regulados, os transtornos mentais causam sofrimento e os tratamentos baseados em evidências são esparsos. De fato, o campo não viu avanços farmacêuticos significativos por muitos anos. As causas biológicas permanecem elusivas e os biomarcadores não existem.


Enquanto isso, a psiquiatria como um campo treme com incertezas teóricas. Não se tornou uma subespecialidade da neurologia, como se poderia esperar se transtornos mentais fossem diretamente mapeados ao comportamento neural. E variações genéticas comuns com grandes efeitos nos transtornos mentais são ilusórias. As várias versões do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais da Associação Americana de Psiquiatria (DSM) permitiram a consistência diagnóstica e a objetivação dos transtornos mentais. Mas o DSM resultou em diagnósticos sobrepostos e listas planejadas de verificação do agrupamento de sintomas. Às vezes, afeta o território da função mental saudável. Allen Frances, presidente da força-tarefa que escreveu a quarta edição do manual em 1994, se revoltou contra o diagnóstico mental descontrolado em seu livro de 2013, DSM: Saving Normal.


De adaptativo a mal adaptativo


Nesse argumenta que a teoria evolucionista poderia promover avanços terapêuticos, fornecendo uma base teórica robusta para a psiquiatria. Ele postula que isso também pode ajudar a evitar que as pessoas equacionem sintomas psiquiátricos com doenças e visualizem extremos de emoções, como a ansiedade, como distúrbios. Nesse também sugere que transtornos mentais podem resultar da ruptura de reguladores que mantêm o equilíbrio no corpo, como o sistema endócrino. A função normalmente adaptativa de pensamentos e emoções poderia, em tais casos, tornar-se mal adaptativa.


O futuro sucesso da psiquiatria clínica pode depender de uma estrutura evolucionária integrada à análise de dados sequenciais do genoma completo; isso poderia ajudar a identificar mutações que predispõem as pessoas aos transtornos mentais. Dadas as pequenas contribuições de genes individuais e os diversos mecanismos envolvidos, isso exigirá a análise dos genomas de centenas de milhares de pessoas. Como resultado do emaranhado extensivo e muitas vezes paradoxal das redes genéticas, os tratamentos futuros podem, por necessidade, requerer que os circuitos mentais sejam engenheirados para liberá-los de restrições evolutivas duramente conectadas.


Em Teodicéia (1710), o filósofo alemão Gottfried Leibniz argumentou que Deus, sendo onisciente, deve ter criado o melhor de todos os mundos possíveis. (Cinquenta anos depois, em seu romance Candide, Voltaire satirizou Leibniz como “Doutor Pangloss”, o qual opinou que falhas no mundo são necessárias, assim como as sombras contrastantes em uma pintura).


Deixando de lado as leituras irônicas, o otimismo do filósofo pode agora mostrar que há ecos racionais na ciência contemporânea. Como as Good Reasons for Bad Feelings corajosamente afirmam, muitos dos principais componentes disfuncionais do transtorno mental, em última análise, ajudam a tornar-nos humanos.

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