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  • Biologia Evolutiva

Como Mamilos e Clitóris ajudaram a elucidar uma importante questão da Biologia Evolutiva?


Leonardo A. Luvison Araújo


Como é do conhecimento de todos, o processo de seleção natural tem grande importância na Biologia Evolutiva. Nos últimos anos, no entanto, muitos biólogos questionam não somente o poder causal e explicativo atribuído à seleção natural, como também a prioridade dada à adaptação em relação a outros fenômenos biológicos relacionados à origem e evolução das formas orgânicas (Sepulveda e El-Hani, 2007).


Em um clássico artigo intitulado The Spandrels of San Marcos and the Paglossian Paradigm: a Critique (1979), Gould e Lewontin criticam o ideal de que a seleção natural deve ter restrições mínimas, de modo que a adaptação seria a causa primária de toda forma, função ou comportamento exibido pelos seres vivos. Segundo os autores, os biólogos muitas vezes se apressam em assumir funcionalidade para qualquer característica encontrada nos seres vivos, criando hipóteses adaptativas e explicando a sua existência em um modelo seletivo.


Esta seria uma prática de propor meramente histórias adaptativas para explicar a existência de características funcionais, sem necessariamente testar empiricamente esta hipótese ou considerar outros cenários. Essas práticas explicativas, ditas adaptacionistas, seriam alvos de críticas por serem meras estorietas (just‑so-stories), “propostas para explicar toda sorte de características dos organismos – relativas à forma e à função. A tese adaptacionista a respeito do poder explicativo da seleção natural (à exclusão de outros mecanismos) não seria testável; e as estorietas geradas com base nessa tese tampouco poderiam ser submetidas à prova empírica” (Abrantes, 2011, p. 20).


Para Gould e Lewontin, as mudanças evolutivas não podem ser explicadas exclusivamente pela ação da seleção natural, sem levar em conta a influência de outros processos. No artigo de 1979, os autores apontam que os biólogos devem ao menos considerar mais seriamente a deriva genética, as restrições relacionadas aos processos de desenvolvimento, as restrições estruturais e relacionadas à história filogenética dos grupos.


Desde então, o poder explicativo da seleção natural para a origem e evolução das estruturas fenotípicas tem sido um dos grandes temas da Biologia Evolutiva. No final dos anos 80, dois conhecidos biólogos protagonizaram uma acalorada controvérsia sobre este tema a partir de estruturas biológicas que certamente despertam o interesse de biólogos e não biólogos.

Trata-se do debate de Gould (1987 a, b) e Alcock (1987) sobre a evolução dos mamilos masculinos, clitóris e orgasmo feminino.



John Alcock - ecólogo comportamental. Escreveu o conhecido livro didático "Animal Behaviour".

Stephen Jay Gould - Paleontólogo Americano.

Evolução dos Mamilos e Clitóris

Clitoria ternatea - leguminosa nativa da Ásia

Os biólogos nunca tiveram dificuldades em explicar evolutivamente o orgasmo masculino, já que é associado à reprodução. Da mesma forma, os mamilos femininos possuem funções óbvias. Mas e quanto ao orgasmo feminino e aos mamilos masculinos?


Em sua coluna da revista Natural History, Gould publicou um texto intitulado Freudian Slip (1987), onde argumenta que o clitóris e orgasmo feminino são “artefatos” de desenvolvimento, devido ao compartilhamento do tecido embrionário do desenvolvimento inicial dos genitais masculinos e femininos.


Homologia dos tecidos do pênis e clitóris.

Gould também argumenta que os mamilos masculinos não são adaptativamente significativos para os machos porque “machos e fêmeas não são entidades separadas, formadas independentemente pela seleção natural. Em vez disso, os dois sexos são variantes de um único plano básico [de desenvolvimento]” (Gould, 1987a: 16).


A mensagem de Gould neste contexto era clara e familiar. Adaptacionistas procuram cenários seletivos para explicar qualquer traço fenotípico aparente. Como Gould argumenta, isso nem sempre é justificado. Não precisamos encontrar funções atuais ou pretéritas para a origem de estruturas como clitóris e mamilos. Eles podem ser originados e mantidos por programas compartilhados do desenvolvimento da espécie, como no exemplo que o autor aborda.


As ideias de Gould não escaparam da atenção de biólogos que consideram apenas as explicações adaptacionistas legítimas. Dois meses depois de sua publicação, Alcock respondeu na revista Natural History, argumentando que a fêmea pode usar o orgasmo como “uma forma inconsciente de avaliar a qualidade do macho”.


Ele argumenta que a relação clitóris-pênis não é análoga ao relacionamento mamilo macho-fêmea porque, ao contrário do clitóris feminino, os mamilos masculinos são “inertes” e não “fazem nada” (talvez alguns homens discordem dessa afirmação).


O orgasmo clitoriano não é “inerte” e Alcock sugere que o orgasmo feminino pode ser usado pela mulher para avaliar o cuidado parental de um homem. Isso pressupõe que o comportamento do macho envolvido na produção do orgasmo na mulher está correlacionado com o cuidado parental. Tal traço evoluiria, então, através da seleção sexual.


A importância da seleção natural e da adaptação na evolução biológica


Gould talvez tenha sido um dos primeiros autores a elaborar uma crítica ferrenha aos adaptacionistas, o qual ele inclusive chama de “fundamentalistas”. Ao contrário do que muitos pensam, Darwin não era um adaptacionista, sendo uma posição característica dos chamados neo-darwinistas:


Os "fundamentalistas" entre os teóricos da evolução revelam a crença de que uma lei abrangente - o princípio central da seleção natural de Darwin - pode originar a complexidade dos caminhos [evolutivos] (...) Os "pluralistas", por outro lado - uma longa linha de pensadores, incluindo o próprio Darwin, por mais irônico que isso possa parecer, já que os fundamentalistas usam o manto de seu nome para distorcer sua posição - aceitam a seleção natural como um princípio primordial (primus inter pares), mas, em seguida, argumentam que um conjunto de leis adicionais, bem como um grande papel para contingências imprevisíveis da história, também devem ser invocados para explicar os padrões e regularidades dos caminhos evolutivos (Gould, 1997).


Podemos distinguir três variedades de adaptacionismo: empírico, explanatório e metodológico. O adaptacionismo empírico defende a primazia causal da seleção natural em relação aos outros fatores evolutivos, sustentando que é possível explicar o processo evolutivo apenas levando em conta a seleção natural. O adaptacionismo explanatório pode admitir que a seleção natural possui inúmeras restrições, e que muitas características dos seres vivos não são adaptações, mas sustenta a primazia explicativa da seleção natural na produção de adaptações complexas. O adaptacionismo metodológico, por outro lado, “não faz nenhuma afirmação acerca do mundo natural e do papel que a seleção natural desempenha no mesmo, consistindo apenas numa recomendação acerca de como os biólogos devem pensar sobre os organismos e organizar suas investigações” (Sepulveda e El-Hani, 2007). Nesse caso, a adaptação seria um bom conceito organizador da pesquisa evolutiva.


O apelo de Gould foi aprofundado por filósofos da biologia, que começaram a clarificar os posicionamentos dos biólogos sobre a importância da seleção natural e da adaptação na evolução biológica. Hoje em dia temos uma clareza muito maior dos tipos de adaptacionismos na Biologia Evolutiva, seus usos e limitações para explicar a origem e evolução das formas orgânicas.


Referências

Abrantes, P. Filosofia da Biologia. Porto Alegre: Artmed, 2011.

Alcock, J. (1987). Ardent Adaptationist. Natural History 96: 4.

Gould,S. J. (1987a). Freudian Slip. Natural History 92: 14–21.

Gould,S. J. (1987b). Stephen Jay Gould Replies. Natural History 96: 4–6.

Gould, S.J; Lewontin, R. The spandrels of San Marco and the Panglossian paradigm: a critique of the adaptationist programme. Proceedings of the Royal Society of London B, v. 205, p. 581–598, 1979.

Sepulveda, C; El-Hani, C. N. Controvérsias sobre o conceito de adaptação e suas implicações para o ensino de evolução. Atas do VI Encontro Nacional de Pesquisa em Educação em Ciências. Florianópolis: Abrapec, 2007.

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