• Leonardo Luvison

Por que pensar evolutivamente é considerar que os peixes não existem ou que todos nós somos peixes?

Atualizado: 23 de Ago de 2018

Darwin esboçou sua primeira árvore evolutiva em 1837, permanecendo como uma metáfora central da Biologia até o presente (Figura 1). As relações de parentesco representadas pelas filogenias fornecem uma maneira de organizar e aprender sobre a evolução da vida e a diversidade biológica. Neste sentido, muitos biólogos buscam ordenar os seres vivos estritamente de acordo com o parentesco evolutivo, formando grupos que compartilham um ancestral comum.

Figura 1. Esboço de uma árvore da vida feita por Darwin, em 1837.

O problema é que quando ordenamos os seres vivos de acordo com o parentesco evolutivo alguns grupos usados no senso comum acabam caindo por terra. Isso acontece porque ao levarmos em conta apenas as similaridades e diferenças (normalmente o critério adotado pela maioria das pessoas) nós agrupamos seres vivos que muitas vezes são pouco aparentados.


É como ir à festa de aniversário de um desconhecido e tentar adivinhar os parentes do aniversariante apenas com base nas semelhanças físicas que ele tem com os outros convidados. Você até pode acertar o grau de parentesco de muitos dos primos e tios do aniversariante, mas garanto que com apenas essa informação você também irá cometer muitos erros.


No caso do parentesco evolutivo, um destes agrupamentos que formamos intuitivamente, apenas com base na aparência externa, é o grupo dos “peixes”. Em livros didáticos encontramos que esse grupo é formado por organismos como os peixes sem mandíbula, peixes ósseos, peixes cartilaginosos e peixes pulmonados. Veja a figura a seguir com alguns membros deste grupo.


Figura 2. O grupo dos “peixes”. De cima para baixo: salmão (peixe ósseo), tubarão (peixe cartilaginoso), lampreia (peixe sem mandíbula) e pirambóia (peixe pulmonado).

Os peixes, no entanto, não podem ser considerados um grupo natural, pois existem organismos que chamamos de peixes que são mais aparentados aos anfíbios, répteis e mamíferos. Os biólogos sabem disso porque para estabelecer o parentesco eles não levam em conta apenas as semelhanças e diferenças morfológicas, mas também as novidades evolutivas partilhadas pelos descendentes de um mesmo ancestral comum. Os cientistas incluem características internas dos organismos, como seu genoma, além do comportamento e o registro fóssil do grupo.


Para ilustrar isso, vamos considerar o seguinte exemplo. Como você estabeleceria a relação de parentesco entre salmão, pirambóia e a vaca? Á primeira vista, salmão e pirambóia, sendo peixes, se aglomerariam juntos em um galho, e as vacas estariam em um galho separado. Se levarmos em conta apenas a aparência externa poderíamos chegar a essa relação de parentesco, mas ao analisar mais características partilhadas entre estes organismos estabelecemos outra relação.


Observe a árvore evolutiva a seguir (Figura 3). Partindo da raiz, a linhagem que leva ao salmão se ramifica primeiro. Continue subindo a árvore e você verá que duas novas linhagens mais aparentadas são formadas: uma que leva à pirambóia e outra que leva às vacas. Em outras palavras, essa árvore mostra que a vaca e o peixe pulmonado estão mais intimamente relacionados entre si do que com o salmão.


Figura 3. Arvore evolutiva contendo salmão, pirambóia e vaca. Retirado de: http://www.conservationmagazine.org/2009/11/science-vs-instinct/.

Mas como os biólogos sabem disso? Isso acontece porque os peixes pulmonados contém uma série de características compartilhadas com os mamíferos (como pulmões) que denotam seu parentesco mais próximo com estes organismos do que com outros peixes. Dessa forma, se você aceitar esta árvore e adotar a insistência dos evolucionistas de que todos os agrupamentos nomeados sejam grupos completos de descendentes de um ancestral, você terá duas opções. Ou você considera que os peixes não existem (enquanto grupo) ou então passa a chamar todos os vertebrados de peixes.


Dessa forma, para a maioria dos biólogos, o grupo “peixes” entrou em desuso. Vertebrata (vertebrados) é o grupo que compreende o ancestral comum de todos os descendentes dos peixes, incluindo obrigatoriamente anfíbios, répteis e mamíferos (Figura 4). Observando a filogenia dos vertebrados nos damos conta que para incluir os Dipnoi (peixes pulmonados) junto com os outros peixes seria necessário também incluir os grupos Amphibia, Reptilia e Mammalia.



Figura 4. Árvore evolutiva dos vertebrados. Retirado de Campbel, 2015, p. 713.

Para dizer que todos os peixes atuais descendam de um ancestral exclusivo, teríamos de pensar que mandíbulas, pulmões, nadadeiras lobadas, entre várias outras características, surgiram independentemente nos ancestrais dos mamíferos, répteis e anfíbios. Neste caso, com base no que sabemos, tanto sobre a morfologia quanto pela genética, é mais provável e parcimonioso que todos estes eventos evolutivos tenham ocorrido uma única vez (Veja a figura 5 com a hipótese menos parcimoniosa).


Figura 5. Árvore com um grupo evolutivo dos peixes e outro apenas com tetrápodes. Observe que esta seria uma hipótese de relação de parentesco muito menos parcimoniosa, pois teríamos de pensar que mandíbulas, pulmões e nadadeiras lobadas surgiram independentemente nos dois grupos. Modificado de Campbel, 2015, p. 713.

Observando a árvore dos vertebrados (Figura 4) ainda chegamos a outras ideias que contradizem o senso comum. Uma delas é que peixes-bruxa e lampreias não são mais aparentados aos outros “peixes” do que com os mamíferos, por exemplo. É isso mesmo. Um peixe bruxa não é mais aparentado a um salmão do que com o ser humano. Por outro lado, por mais que o peixe pulmonado seja parecido com os outros “peixes”, podemos afirmar que ele é mais aparentado com um ser humano do que com um tubarão ou com um salmão.


Se você ainda não entendeu totalmente essa ideia, não se preocupe, mesmo os biólogos mais experientes se confundem com essas interpretações. Consulte o capítulo 19 do livro “Evolução Biológica: da pesquisa ao ensino”*, o qual explica o passo a passo de como interpretar as árvores evolutivas.


*Disponível em: https://www.editorafi.org/240biologia

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